Arquivo da tag: situações chatas

Dois novos referenciais de desconforto profundo na relação com outras pessoas

pivot
o paradigma da carona
: daí que você pediu um favor. não é um grande favor. você não pediu um órgão pra transplante, não pediu pra pessoa cuidar dos seus filhos enquanto vai pra uma guerra, não pediu pra um plebeu que é impresionantemente parecido com você fingir ser rei enquanto você vive como um camponês pra conhecer melhor seus súditos. não, você pediu uma coisa simples. uma carona, um lugar pra dormir durante a noite, uma ajuda pra montar um guarda-roupa. e a pessoa, gente boa, amiga, prestativa, aceitou, claro, eu ajudo, que isso, a gente é bróder, aqui é parceiragem, é parceria + caradagem. e tudo começa bem. a carona chegou na hora, o sofá é bacana, a pessoa trouxe até a própria chave de fenda. você tá agradecido, você tá feliz, você tá fraterno.

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Mais dois intensos adendos ao intenso catálogo pessoal de momentos de frustração intensa

bruce

# na linha das grandes palavras de consolo que não servem exatamente pra te consolar, junto com “gosto de você, mas como amigo” e “poderia ter sido nos dois braços, né?”, o famoso “o senhor tem razão mas não podemos fazer nada” tem a intenção de atenuar uma verdade profundamente negativa – não poderem fazer nada – com uma informação que em tese deveria ser positiva – você ter razão. o problema principal com essa lógica, a de que você se sentiria menos chateado de ter ido ao banco pra nada/pago em dia e ainda assim cobrarem juros/ter ficado uma hora no telefone pra não resolver seu problema, é que nesse tipo de situação ter razão não é um atenuante mas sim um agravante para o quão louco das calças você vai ficar com essa palhaçada. 

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3 breves momentos de sutil terror no processo de interação humana

Parksandrec_Bendisaster

#a intimidade súbita: o ambiente é a academia, o aparelho é o supino, a carga é 40, mas o verdadeiro esforço vem quando o professor diz “vocês dois, revezando aqui”. você malha ali tem um ano, o cara já tava antes, mas vocês nunca trocaram uma palavra até esse momento e dá pra notar na feição dos dois que existia um plano quinquenal quase stalinista de manter as coisas assim. ele fala algo sobre regular o peso, você tira o fone pra responder, ele faz um comentário sobre a música na rádio, você tudo bem, aí ele ajuda a tirar um peso do caminho, você agradece. uma interação breve, uma interação simples, tudo bem menos pior do que você imaginava, você pensa. aí o professor comenta que a série tá boa, porque você tá bem suado, você diz que realmente transpira muito, é uma coisa que você tem, e aí o cara, que nunca tinha falado contigo antes e que pronunciou, nessa tarde, as três primeiras frases trocadas entre vocês dois, levanta a voz e diz “ISSO AÍ SUANDO DESSE JEITO QUANDO TRANSA DEVE SER UMA CHUVARADA DO CACETE NA CARA DA MINA, NÉ? ELA DEVE ACHAR QUE TÁ NUMA CACHOEIRA, PLOFT PLOFT SÓ ÁGUA, SÓ ÁGUA, É UMA DUCHA NA GAROTA”. “bem menos pior do que eu imaginava”, é a frase que você tinha dito pra você mesmo.

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Pessoas que comentam aquele seu post no facebook: #41

jammed

#o solução retroativa: e aconteceu um problema. é daquele problema que fica na zona cinza entre o problema grave, a perda pessoal, e o problema pequeno, a inconveniência da vida. o tipo de problema que poderíamos caracterizar como “problema meio foda”. seu computador pifou com a sua monografia dentro, perderam sua mala no aeroporto com suas roupas, estourou feio o cano do seu banheiro, chegou na cidade e o hotel alega que sua reserva não tá constando. você tá baqueado, tá chateado, destino te estapeou com a luva áspera da mágoa surpresa, mas você ainda acredita no semelhante e, visando obter o máximo de retorno possível, faz aquele post no facebook. “alguém sabe de um cara que recupera hd?”, “alguém já passou por isso com a tam?”, “conhecem encanador bom na zona sul?”. é um pedido de coração aberto, é uma solicitação focando nos amigos, é aquela mão de bytes estendida no cyberespaço em busca de um braço forte e ombro amigo que indique alguém que não cobra 300 reais só pela visita na zona sul, você compra as peças. surgem os amigos. um diz que vai ver com um primo que passou a mesma coisa, outro te recomenda um links, vários apertam no botão “solidário com sua dor ainda que não possa ajudar” do facebook.

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Medo e delírio no elevador da firma

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Era um final de tarde normal, após um dia normal, de trabalho normal, numa empresa normal. Você se encaminha para o elevador, o andar é o 25, a bolsa carteiro pesa nos ombros, a camisa social amarrotada, o ipod com a playlist que sua namorada montou toca aquela versão de skinny love (amor magrinho) que você gosta. Ele para no 24, ele para no 23, quando ele para no 22 entra um grande número de pessoas. Acontece aquela acomodação natural, pessoas se cumprimentam, se apertam, se reorganizam, você olha o celular pra evitar algum conhecido. Uma descida de elevador normal num dia normal.

Uma senhora se acomoda na sua frente, mochilinha nas costas, você nota algo de diferente. No começo não sabe definir, no começo não sabe explicar, no começo é algo que, assim como o amor numa canção do sorriso maroto, é pra sentir, não pra entender. Mas num dado momento você entende. O sentido certo se manifesta e você percebe: o cheiro tá esquisito. Não pouco esquisito, não o esquisito normal, se acreditarmos que existe um padrão normal para a esquisitice, mas um esquisito berrante, um esquisito atípico dentro de sua própria esquisitice. Em suma, a senhorinha na sua frente está fedendo bastante.

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