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Mais itens do dicionário pessoal de frustrações na interação social e emocional

bojack

# você não queria ir, mas também não queria dizer que não queria ir. você é um pouco inseguro demais, você tem dificuldade pra falar não, você não gosta de ser assertivo, você ficou ali naquela situação chata, você decidiu inventar uma desculpa. “rapaz, então, não dá porque eu preciso buscar minha mãe na rodoviária”. desculpa envolvendo mãe é sempre desculpa boa, ninguém questiona desculpa envolvendo mãe, sua mãe tem aquela fama de ser meio imprevisível mesmo, é a desculpa de segurança, não tem como não colar. “ah, eu tô de carro, eu te levo lá, a gente busca ela”. você franze a testa porque por essa você não esperava. como assim vai contigo buscar a sua mãe? “ah, mas o ônibus costuma atrasar, tu não vai querer ficar preso lá”. tu sorri porque jogou na boa, jogou na simpatia, reforçou a dificuldade mas sem parecer má vontade, pareceu gentileza, pareceu que tava protegendo.

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Você não é o que você ouve (ou lê, ou assiste) ou “Rob Gordon estava meio errado”

falamsana

Seres humanos são criaturas complicadas. E não falo apenas por todos os momentos em que você vê alguém fazendo algo absurdo, inexplicável ou apenas constrangedor e se vê coçando a cabeça e dizendo “é, complicado…” mas porque somos realmente complexos, em qualquer nível de análise.

Temos traços de personalidade conflitantes, atitudes contraditórias, um processo de comunicação cheio de sutilezas e nuances, uma variedade de características positivas e negativas imensa demais para ser realmente catalogada. Como eu já disse, somos complicados.

E por isso um recurso que sempre usamos, pra lidar com as outras pessoas e com toda a complexidade que elas representam, é a generalização, a simplificação, que é a nossa maneira de deixar de lado toda essa complicação e tirar daquela pessoa uma sinopse, uma imagem aproximada, sem ter que navegar em todos os detalhes que formam aquela personalidade. Por exemplo, Pedro não é “um cara tímido porém carente que lida com suas inseguranças usando o humor como escudo”. Pedro é “metido a engraçadão”. E pronto.

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Pequenos e breves momentos de intensa comunhão espiritual com pessoas que você não conhece e provavelmente nunca mais vai ver

winston

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você tava voltando do almoço, passando ali perto da catedral, o sol do inverno carioca na sua cabeça, aquele passo acelerado de quem já estourou a hora, tá preocupado com o ponto, não quer compensar, os dilemas do capitalismo por todo o seu corpo como um hidratante monange na pele da xuxa. mais a sua frente dois japoneses caminham, um ritmo mais tranquilo, os dois conversam em japonês enquanto apontam as plantas, a catedral, os prédios do outro lado da rua. um deles para para amarrar o cadarço e você ultrapassa, vai se aproximando do outro, num dado momento vocês tão emparelhados, você e o japonês, você nota que o japonês continua falando, ele não notou que o outro tinha parado. até que ele se vira e ele te olha. e você nota a testa do japonês franzindo, e você nota os olhos do japonês se apertando e ele vira e te diz uma palavra que você acredita ser “Tesuo?” e você consegue notar, pela reação dele, pela linguagem corporal, pela expressão, que ele não tá achando que você é um ladrão, que ele não tá achando que o amigo dele sumiu, que ele não tá achando que ele se perdeu. por um segundo tu vê nos olhos daquele japonês que, por uma fração ínfima de tempo, por um momento breve mas significativo, a primeira ideia que passou pela cabeça dele foi “porra, meu bróder japonês virou um homem latino barbudo”. e você, enquanto cara que ouve um “vai ver se a pizza tá queimada” e volta dizendo “tá sim” sem ter tirado do forno, enquanto homem que ouve um “sabe a chave que tá em cima da tv? traz ela pra mim” e responde com “a chave ou a tv?” reconhece ali o momento de espasmo mental alheio e abre aquele sorriso solidário que aí sim faz o cara pensar que você é um assaltante mas aí o amigo japonês já acelerou o passo e tu passa rápido pelos dois e já dispara pela reta pro seu trabalho e sim, atrasou mais de meia hora, vai precisar compensar mesmo, é foda demais a vida de vez em quando.

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Mini-conto #21 – “Adventure Comics 330″

lex luthor

Quando ela ligou o rádio do carro a música deles estava tocando. Por um segundo a mão tremeu, ela não conseguiu apertar o botão certo, ouviu todo o refrão. Mudou de estação. Respirou fundo, abriu a janela, saiu com o carro.

No caminho a rua de sempre estava fechada, teve que pegar um desvio. Cruzou duas ruas que não conhecia muito bem e quando reconheceu o caminho outra vez estava passando na frente do bar onde eles tinham se conhecido. Acelerou um pouco mais, quase furou um sinal, colocou a mão no porta-luvas pra procurar por alguma coisa sem nem saber o que era.

Escritório. Na entrada a Fernanda estava esperando com umas pastas, ela tentou desviar mas as duas acabaram no mesmo elevador. Ela não falou sobre ele, não perguntou, apenas cumprimentou como se não tivesse nada pra falar. As duas sorriram um pouco sem graça. O elevador pareceu demorar o dobro do tempo pra chegar no oitavo andar.

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