Arquivo da tag: teorias

Novas aventuras em lo-fi #21

travolta

[este texto pode conter spoilers para aqueles que ainda não assistiram o filme “garota exemplar”. sério, pode mesmo. não é uma ameaça vazia. ainda que, num certo grau, todo texto pode conter spoiles pra “garota exemplar”, né? assim, falando em termos de possibilidades e tal]

Uma coisa que eu sempre gostei, desde moleque, é a chamada “música com historinha”. Sim, é bacana aquela canção num esquema mais lírico, é fera um verso mais livre, é bonito quando a coerência vai pro espaço e tão ali apenas umas palavras legais e a pessoa tá gritando que quando ela se sente metal pesado e mente e é fácil o tempo todo, mas um lado meu sempre admirou demais o esforço necessário pra contar, de maneira rimada, uma historinha, seja essa uma trama em que você descobre que o chico mineiro era [spoilers] seu legítimo irmão ou uma em que um bróder conta que ele conheceu a menina, escreveu o nome dela na mão, a chuva apagou como numa propaganda de corsa. Em suma, historinhas.

E de todas as músicas com historinha poucas até hoje me fascinaram mais do que “Escape”, ou “The Pina Colada Song”, do artista Rupert Holmes. Isso porque, ainda que à média distância ela possa parecer apenas uma canção setentista sobre drinks exóticos ela é, na verdade, uma das mais perturbadoras e tensas narrativas sobre infidelidade, crise nos relacionamentos e o fardo do eterno romance que o ocidente já chegou a produzir. Acompanhem comigo.

Continuar lendo

1 comentário

Arquivado em é como as coisas são, Desocupações, homens trabalhando, Music Review, Sem Categoria, situações limite, Vacilo

Da nossa eterna irritação com o comum – ou “porque você odeia tanto o Latino”

Bambam-e-Dhomini-no-BBB-13-size-598

Uma coisa comum de ouvir por aí é que vivemos numa cultura da mediocridade. As pessoas não querem ver arte, as pessoas querem ver Big Brother, as pessoas não querem ouvir boa música, as pessoas querem Justin Bieber, as pessoas não querem grandes filmes, elas querem imensas franquias com carros que viram robôs. E ainda que existam ótimos argumentos tanto para questionar se não estamos realmente nos aproximando de um menor denominador comum cultural quanto para defender a graça de carros que viram robôs – sério, são carros, que viram robôs, você precisa admitir que isso é legal, vai – um aspecto dessa sensação geral de irritação sempre me pareceu muito curioso e ao mesmo tempo pouco abordado. O motivo disso nos irritar tanto.

Continuar lendo

10 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, homens trabalhando, Internet, Sem Categoria, situações limite, teorias

Problemas práticos do romantismo teórico – XXV

parks-and-rec-louis-ck1

Poucas coisas são mais complicadas quando se trata de relacionamentos humanos do que conseguir dimensionar corretamente a impressão que você deixou em alguém. Não existem indicadores claros, não existem regras de proporcionalidade, não existe nenhuma sistemática que oriente ou regule o quanto você lembra de alguém em relação ao quanto essa pessoa se lembra de você.

Pessoas que você se esforçou por anos pra esquecer em quinze dias nem lembravam mais o seu nome, aquele telefonema que você lutou contra si mesmo durante meses para não fazer mas acabou realizando num momento de bebida e fraqueza é respondido com um “mas marcos? qual deles? o da academia?” e você ficou sabendo através de amigos que aquela garota que na sua cabeça está indexada como “a garota que foi embora” se refere a você em eventos sociais como “o carequinha que falava engraçado”.

Continuar lendo

2 Comentários

Arquivado em Desocupações, referências, romantismo desperdiçado, Sem Categoria, situações limite, teorias, Vida Pessoal

Sobre o terror primitivo do falo conceitual voador

superbad

Ainda que poucas pessoas costumem notar, de todos os xingamentos e praguejares existentes na língua portuguesa – uma língua rica em possibilidades de ofensas, que vão desde menções a genitais peludos como forma de extravasar raiva até informações sobre as opções vocacionais da mãe do outro como meio de ofensa – um dos mais graves, aterrorizantes e sinistros é o interiorano, comum e primariamente inocente “caralho de asa”.

Continuar lendo

6 Comentários

Arquivado em Desocupações, Mundo (Su)Real, Sem Categoria, situações limite, teorias, Vacilo

Da irracionalidade esportiva coletiva que chamamos de quarta-feira à noite

Como boa parte da população brasileira eu sou apaixonado por futebol. Fui educado jogando e acompanhando o esporte, cresci completando álbuns de figurinhas da copa, me tornei um homem adulto que freqüenta estádios, paga mais caro para ver jogos em hd na televisão e briga com outros homens adultos por causa de pontuação em fantasy games de futebol – o que talvez seja uma boa razão para repensar o número de vezes que eu disse “adulto” nesse último parágrafo.

Mas mesmo sendo apaixonado por futebol e tendo essa paixão como uma coisa natural pra mim, conforme eu fui crescendo e levando uma vida mais e mais “adulta”, eu comecei a notar que para uma parcela também significativa da população o futebol não apenas não tem nada de natural como também representa um transtorno constante, interminável e contra o qual eles vêem impotentes, já que bem, não chamam o Brasil de país do futebol pelo fato de que tratamos a bola rolando como um hobby e a gente pega super leve com essas coisas.

Continuar lendo

Deixe um comentário

Arquivado em é como as coisas são, situações limite, Vacilo

Tipos #12, #13, #14 e #15 de brigas de casal

paulofoul

#12 – O você tá levando isso muito a sério : Vocês se apaixonaram exatamente por causa das suas diferenças. O jeito sério dela complementa a sua fanfarronice, a sua paciência a ajuda a lidar com o próprio nervosismo, você gosta só de creme, ela adora chocolate e morango, ela precisa de dois travesseiros, você desde garoto dorme sem nada debaixo da cabeça. E isso seria lindo não fosse o fato de que você considera entrar no cinema depois que a sessão começa um sacrilégio, ela considera uma possibilidade, você considera uma toalha molhada debaixo da cama um descuido, ela considera um ato contra a pátria e a família, você considera brigar por causa disso bobagem, ela quer saber quem foi que você chamou de bobo, você diz que ela tá levando isso muito a sério, ela pergunta se então as coisas importantes pra ela são brincadeira pra você, a última coisa de que você se lembra antes de perder a consciência é de ver aquele joystick de xbox voando na sua direção.

Continuar lendo

7 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, romantismo desperdiçado, Sem Categoria, situações limite, teorias, Vacilo

Sobre a obrigação de dar alguma opinião

caetano_veloso

Ainda que eu não seja daqueles que responsabilizam a internet pela dissolução da família, a violência nas ruas e a falta de assunto nas festas de reencontro de turmas (“ah, e eu fui pra Itália, sabia?” – “sei, eu vi seu álbum de 700 fotos, incluindo aquela empurrando a torre de pisa. assim, bem original”) eu considero que ela é uma das principais responsáveis por outro fenômeno perturbador e bastante típico da nossa era: o fato de que todos nós nos sentimos na obrigação de ter opiniões sobre tudo.

Continuar lendo

4 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, Crônicas, revista em minas

Registros de uma vida na sociedade do fail

lasier

Como qualquer um sabe, nunca antes a humanidade viveu num ambiente em que é tão fácil deixar para trás registros e memórias de si mesmo. Se os homens pré-históricos deixavam pinturas em cavernas, os povos antigos desenvolveram alfabetos e criaram os primeiros registros literários, e na era moderna chegamos a produção em larga escala de livros, ao registro em filme e foto, a acumulação de dados, hoje vivemos num período em que uma pessoa média pode fazer uso de um sem número de formatos para registrar seus atos. Temos fotos no instagram, temos vídeos no youtube, temos redes sociais onde podemos narrar cada passo do nosso dia, sendo limitados apenas pelo nosso próprio senso de constrangimento e pela volume de pessoas replicando “jovem, qual é a necessidade disso?” na nossa timeline. Continuar lendo

2 Comentários

Arquivado em Crônicas, Internet, Sem Categoria, situações limite, teorias, Vacilo

Do eterno dilema bumbum/virilha

muppets

E então você está lá com a gatinha no cinema. A noite é bonita, a conversa é interessante, a previsão do tempo garantia chuva mas o único clima que você consegue perceber é de romance. A pipoca está gostosa, as balinhas estalam na boca com doçura e a vida parece curta, mas não tão curta quanto aquela sainha sensacional que ela está usando – você já consegue imaginar aqueles belos joelhos tocando os seus durante essa simpática sessão cinematográfica. O filme é de terror, ela disse que sente medo, perguntou se pode segurar a sua mão e você sente que a vitória se aproxima, o sucesso é garantido e antes do final da noite você já vai ter chamado aquela linda de Terra de Vera Cruz e colonizado aquele corpinho todo.

Continuar lendo

4 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, crise de meia meia idade, Declaração de princípios, homens trabalhando, situações limite, Vacilo

Sobre sua tia, as idosas do flamengo e traços de uma ditadura da cronologia

oldladies

Desde pequenos somos treinados para respeitar os mais velhos. Seja obedecendo o papai, seja não respondendo a mamãe, não gritando com a vovó ou apenas não fazendo perguntas sobre quem são aqueles caras que toda madrugada entram com duas caixas de isopor, uma fantasia de garibaldo e sete pistolas d’água no quarto da titia, somos basicamente doutrinados a acreditar no adulto– ou genericamente no “mais velho” – como o repositório máximo de autoridade e poder, seja ele um familiar, um professor ou apenas o segurança do shopping que insiste em pontuar que precisamos fazer aquela haste mecânica efetivamente segurar o brinde e não vale tentar apenas enfiar o braço logo naquela caixa de vidro pra tirar o ursinho, isso é ilegal e vou chamar seu pai.

Continuar lendo

4 Comentários

Arquivado em é como as coisas são, crise de meia meia idade, Desocupações, situações limite, teorias, Vacilo