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Trecho número 67 de uma tentativa de teoria unificada das comédias românticas

John-Cusack-in-Say-Anythi-002De todos os conflitos lógicos que dominam o gênero das comédias românticas – estabilidade x novidade, liberdade x compromisso, aceitação x correção – poucos são mais complicados de solucionar racionalmente e geram mais dissociação em relação aos princípios do romance real e prático do que a dicotomia básica entre a definição do amor enquanto solução ou fim da jornada e a visão do romance enquanto processo ou conquista contínua, possivelmente as duas mais frequentemente apresentadas nesse contexto ficcional específico. Continuar lendo

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Arquivado em cinema, citações, Desocupações, referências, romantismo desperdiçado, teorias

Por uma breve teoria narrativa dos tremendos vacilos

Evil_Troy_and_Evil_AbedUma tendência natural em todo ser humano é a de comparar sua vida a um processo ficcional de narrativa. Existem as pessoas, que atuam como personagens, existem as sequências de eventos e suas conseqüências, que formam a trama, existe um começo claro, um final pontual e uma passagem delimitada de tempo. Dentro dessa lógica nos vemos como protagonistas de uma história específica, que varia entre os mais diversos gêneros e que pode envolver ação, aventura, romance, terror ou apenas muitas pessoas falando sobre muitas coisas durante muitas horas enquanto toca uma música engraçadinha ao fundo e no final o Bill Murray te dá um abraço porque essa meio que é a onda do cara.

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Arquivado em Crônicas, crise de meia meia idade, homens trabalhando, Vacilo, Vida Pessoal

Novas aventuras em lo-fi #17

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Como todos sabem, vivemos numa época marcada pelo duelo entre a globalização cultural, um processo de universalização que aproxima e mistura as mais variadas culturas, e o recrudescimento dos mais antigos conflitos e preconceitos. Temos acesso a diversas culturas com um clique do mouse mas estranhamos a pessoa com outro sotaque, podemos chegar ao outro lado do mundo em algumas horas mas temos medo que estrangeiros roubem nossos trabalhos, podemos graças a internet ter acesso a pornografia que envolve dois cavalos, uma freira e um anão fantasiado como Kim Jong Il transando numa banheira de iogurte vigor grego mas quebramos lâmpadas na cabeça de homossexuais nas ruas. São tempos esquisitos.

Exatamente por isso se torna importante, mais do que ressaltar as diferenças entre judeus e palestinos, católicos e protestantes, brancos e negros, buscar as semelhanças, as experiências comuns, aquelas coisas que ao invés de nos separar nos unem. E no caso dos héteros e dos homossexuais, um desses elementos, ainda que poucos reparem, é que quase todos nós, quando crianças ou adolescente, em alguma excursão do colégio, do curso de inglês ou do time de futebol, cantamos essa verdadeira epopeia musicada da descoberta do prazer da sodomia e da paixão homossexual chamada “rema, rema, remador”. Sim, rema, rema, remador. Venham comigo.

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Arquivado em Music Review, situações limite

Precisamos falar sobre Ted

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Em primeiro lugar temos que lembrar que How I Met Your Mother é uma comédia romântica e comédias românticas, assim como tudo que envolve o romance, são fortemente baseadas num processo de idealização. Assim como a religião consiste em ordenar numa narrativa idealizada e coerente eventos que poderiam tranquilamente ser analisados de forma aleatória e desconexa (macacos, pessoas, vida pós-morte, barulhos estranhos na cozinha, histórias da sua avó sobre um cara cabeludo que andava na água) o romance também trabalha reorganizando de forma narrativa e mais socialmente aceitável eventos que poderiam ser calcados em diretrizes puramente biológicas ou randômicas (atração física, disponibilidade momentânea, consumo excessivo de álcool, tara patológica por pintinhas). Continuar lendo

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Arquivado em Desocupações, teorias, tv

Sobre Drive, rudimentos de interpretação cinematográfica e a eterna semiótica do palito de dentes

Dentre todas as fascinantes características das obras de arte contemporâneas, uma das mais intrigantes, senão a mais intrigante de todas, é a de sua indeterminação, de sua posição como obra aberta, por assim dizer. Isso porque, sendo exposta a quantas interpretações quanto for seu número de leitores, ela nunca se esgota, com cada observador participando ativamente do processo criativo e da busca por significado. E claro, ao mesmo tempo em que, no aspecto positivo, isso quer dizer que a obra de arte sempre se renova a cada leitura já que todo novo leitor tira dela um sentido diferente, no aspecto negativo isso quer dizer que alguns leitores, várias vezes a maioria deles, vai apenas viajar grandão, ter um monte de idéia errada e ir pra casa achando que Cocoon era um filme pornô porque tinha idosos em traje de banho. Sério, tem galera que faz isso mesmo.

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Arquivado em é como as coisas são, cinema, Movie Review, teorias

Breves conceitos para uma análise das sub-amizades

A amizade de ocasião: nascida quase sempre de forma fortuita e majoritariamente derivada da exposição de pessoas a um ambiente hostil e desconhecido, a amizade de ocasião é o melhor exemplo de relacionamento instrumental, no qual duas pessoas desenvolvem um vínculo – tênue ou não – apenas pelo período necessário para que superem uma situação específica ou supram uma necessidade pontual, sem que exista necessariamente o planejamento ou intenção de que essa relação seja mantida fora daquele contexto ou após aquele período. Como exemplos de amizade de ocasião podemos mencionar aquela sua extrema simpatia pelo seu vizinho que comprou um videogame novo antes de você, aquela sua profunda ligação com a colega nova do trabalho até notar que ela não tinha amigas gostosas e todas as noites em que você, bêbado, aluga o garçom falando sobre como sente falta da Luana e terminar com ela foi o pior erro da sua vida. Continuar lendo

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