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Mini-conto #13: “Comédia romântica”

Nas comédias românticas as pessoas gostam de dizer que se lembram tudo. Que você usava vermelho, que a lua estava cheia, que nós pedimos macarrão, que o táxi atrasou, que o garçom era engraçado, que o seu perfume tinha algo de jasmim. Eu lembro que você me esperava na frente de uma banca de jornal, que quase não conseguimos achar um bar, que as pessoas falavam alto em torno da gente, que um garotinho se ofereceu pra fazer alguma coisa em troca de dinheiro – falar os dias da semana em inglês,foi isso? – e você foi muito simpática com ele e achei isso muito bacana em você. Eu não lembro exatamente da sua roupa, eu não lembro exatamente da lua, ou se estava frio, ou se estava quente, mas eu lembro que você estava com uma câmera e eu fiquei inseguro pensando se esse era um plano de emergência caso eu fosse muito chato – “ei, desculpa sair assim, mas esqueci que precisava fotografar uns canários agora à noite pra um trabalho e olha só, esse é meu táxi, tchau”. E no tempo que eu precisasse pra perguntar se canários efetivamente saem à noite e que tipo de trabalho era aquele você ia ter ido embora, algo assim. Mas naquela noite você ficou. E ainda consigo lembrar do primeiro sorriso que você me deu.

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Arquivado em cinema, contos, Ficção, referências, Vida Pessoal

All the best cowboys have (grand)daddy issues


Um dia desses eu estava conversando com os caras sobre filhos. Sim, quando você chega na casa dos 26 as conversas sobre garotas rapidamente se tornam conversas sobre relacionamentos, que desembocam em conversas sobre namoros, que descambam para conversas sobre casamentos e subitamente, quando você menos nota, as pessoas estão falando de crianças, bebês, filhos e você fica ali com aquela sensação de que o tempo passou rápido demais, o futuro já acabou e em breve não vai ter mais ninguém pra jogar kinect contigo no meio da semana. Mas não, o texto não é sobre isso, é sobre um problema maior.

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Arquivado em Crônicas, crise de meia meia idade, Mundo (Su)Real

Top 7 – Grandes momentos do Just Wrapped em 2010

E então é Natal. Mas ao invés de perguntar o que você fez e te dar aquele momento desconfortável de retrospectiva do ano, lembrando das aulas que você matou na academia, seu namoro que acabou e seu bicho de estimação (um furão cego) que morreu após tentar nadar na privada, resolvi listar aqui os 7 grandes momentos do Just Wrapped em 2010, tomando como referência os textos mais acessados pelos nossos sensatos e sempre criteriosos leitores. Aproveitem então essa bela viagem pelo que este blog teve de mais emocionante, épico e até mesmo fofo no ano neste ano que passou, com um forte abraço a todos os envolvidos. Vem comigo!

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Arquivado em citações, Desocupações, Milton Neves, No News, Top

Mini-Conto #1: “Bestiário”

bestiario

Existe o trânsito, certo? E existe o trabalho, e existem as horas extras, e existem os chefes irritantes que não te deixam pedir transferência mesmo quando está óbvio que você não está produzindo nada. E como eu disse, existe o trânsito, barulhento, os táxis que não param, o ônibus que você não conseguiu pegar e as vans que atrapalham tudo, sem falar nos caras malucos de moto. E existem os telefonemas incômodos, os trotes de madrugada, as falhas de comunicação, as zonas sem sinal, as contas. E existem os problemas de família, as broncas de pai, os pedidos da sua mãe pra que você leve um casaco, a sua irmã que arranhou seu CD do Smashing Pumpkins, o seu cachorro que sumiu e só apareceu dois dias depois.

Existe o seu professor de mestrado, a sua tese, a minha cara de quem não entendeu a sua tese, o seu time que perdeu ontem e a sua amiga que nem gosta de futebol (como se você gostasse) mas te ligou pra comentar. E existem os seus ex-namorados, as minhas ex-namoradas, aquela garçonete que mexeu comigo aquele dia (mas eu realmente juro que nunca tinha visto aquela garota antes), e todo o resto. Mas também existe o aquecimento global, a possibilidade de guerra nuclear, a Coréia do Norte, o Irã, o seu medo de asiáticos, o vulcão da Finlândia que pode atrapalhar as nossas férias, o meu chefe, que também pode atrapalhar as nossas férias (e que eu gostaria que estivesse dentro de um vulcão, possivelmente na Finlândia).

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Arquivado em contos, Nerdices, Sem Categoria

Falas em busca de um roteiro

“Sabe qual é o problema entre nós dois? É que eu cresci e você não. Eu amadureci e você não. Eu achei um emprego, uma sala, uma rotina de oito horas com passeios opcionais nos finais de semana e você não. E eu acho que agora é um pouco tarde demais pra que eu admita que você fez a escolha certa. E eu não. Mas eu tenho um grampeador, se isso servir de compensação”

“Eu sei que eu posso estar me adiantando um pouco e isso pode soar esquisito, mas se essa bebida levar à outra bebida, essa outra bebida levar à um beijo, esse beijo levar à uma noite juntos e isso virar realmente um relacionamento, mas por alguma razão nós virarmos um desses casais que brigam o tempo todo e discutem por bobagens feito a escolha de um dvd ou onde vão passar o natal, quando uma das brigas ficar séria demais, você poderia me lembrar de te dizer que, de todas as coisas que eu vi até hoje nada, nada mesmo, é tão lindo quando o jeito como você está me olhando agora?”

“O que nós estamos fazendo é simples como andar de bicicleta. Com a diferença de que nenhum de nós dois sabe andar de bicicleta”

“Eu não me importo realmente com o que você pensa, mas me importo com você o bastante para fingir que me importo. Isso fez sentido pra você?”

“Atire no papagaio! Não pense, apenas atire no papagaio! Ele devorou Jay, ele é maligno!”

“Sabe aquele email? Era tudo bobagem. Desde que você foi embora eu descobri que em cada língua existem pelo menos uns 50 sinônimos pra saudade. E nem vou precisar citar o seu nome como um dos primeiros.”

“E você tem todo o direito de ir embora, o problema não é esse. E o problema nem é o fato de que você vai sair por aí e vai fazer outras coisas, conhecer outras pessoas e nunca vai se sentir satisfeita com alguém que não sabe pra que lado você dorme, ou em que momento você está realmente triste, ou como você prende seu cabelo quando fica preocupada, ou que tipo de filme te faz dar risadas. Nada disso. Você tem todo o direito de sair por aí e acreditar que eu vou ficar feito um idiota te esperando. Isso não é um problema. Na verdade o único problema é que tem um lado de mim que acredita realmente que valeria a pena ficar aqui sentado esperando por isso.”

“Meu Deus, alguém mate o maldito papagaio! Cortem as asas desse bastardo! Meu Deus! Maldito papagaio!”

“Você quer saber a verdade? Você quer mesmo saber a verdade? Você não iria reconhecer a verdade nem mesmo que ela estivesse na sua frente! Nem que ela tropeçasse em você. Nem se ela fosse uma espinha no seu rosto pra ser espremida. Nem se ela fosse um inseto e pudesse te picar. Nem se ela fosse uma ex-namorada e te telefonasse de madrugada te xingando. O que você sabe sobre a verdade? Hein? Hein? Quem você pensa que é pra merecer a verdade? Mas ok, se você quer a verdade, a verdade real, aí vai…eu…hummm…qual era a pergunta mesmo? Me esqueci, desculpe…”

“Suzana, eu realmente acredito que o universo conspire…só não penso em uma boa razão pra que seja à favor…ei! o que é isso? Asas? Um papagaio, diabos, um papagaio! Fujam, corram por suas vidas! Um papagaio! Um papaghaaaaaaaaarrrrrrgh!”

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