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Diários da ex-adolescência

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“Good night and good fight!” 3/3

 

Chegando no salão eu fui um dos primeiros a notar que existia um certo clima de animosidade no ar. Afinal, nós alunos estávamos tomando toda a atenção feminina do local, fosse pro bem ou pro mal, e isso estava deixando irritados alguns dos primos e amigos das meninas, que perceberam que estavam fazendo figuração na festa. Eles estavam se reunindo em bandos espalhados por várias partes do salão, enquanto nós curtíamos inocentemente a festinha. Alguns outros amigos que tinham notado o problema resolveram que seria uma boa se todo mundo trocasse de roupa, deixasse de lado as fardas de gala, que chamavam atenção demais, e vestisse ternos, pra dar uma misturada, mas alguns acharam que era bobagem.

E então começou a tocar funk, o típico prenúncio do armageddon. A seqüência dos fatos é confusa, mas vou contar do jeito que eu me lembro. Um amigo nosso esbarrou em um dos “primos” da aniversariante e tomou um empurrão. Outro dos nossos foi tirar satisfação e foi jogado no chão, com um terceiro tomando um soco. Entrou em cena então Yuri, empurrando um cara, tomando um chute e acertando no cara uma das mais belas bicudas que eu já vi, digna de uma final de super-bowl, deixando o cara fazendo aquilo que Dylan chamaria de “bater na porta do céu”. Essa foi a senha pra pancadaria geral começar instantaneamente, com cerca de 40 deles contra 15 de nós. Ou contra o que seriam 15 de nós.

Em dez segundos os quinze haviam rapidamente virado 5, sendo Yuri, que tem massa física e é treinado nas artes místicas dos ninjas do bairro São Dimas; Átila, que era praticamente a reencarnação do líder dos Hunos e brigava com 3 caras ao mesmo tempo, ganhando; Zaidem, que era enorme, violento, mau, cruel e insistia que a Uni da Caverna do Dragão era um filhotinho de jumento; Fábio, o príncipe que não estava nada encantado;e eu, que não sei brigar, não sei me defender mas tenho uma fidelidade canina em relação aos amigos e só notei que a briga tinha começado quando era tarde demais pra fugir. Todos os outros haviam sumido, evaporado, se escondido atrás de uma garota ou desaparecido debaixo de alguma mesa. Eram exemplos de coragem e solidariedade surgindo de todos os lados.

A briga prosseguia, com Yuri sendo linchado por seis caras e tentando revidar, Átila tentando abrir caminho até Yuri usando os corpos de alguns indivíduos que ele já tinha deixado inconscientes, Zaidem esmurrando tudo que se movia, Fábio se defendendo e eu, cercado por 3 caras numa das quinas do salão, tentando me defender com joelhadas e copos de vidro que eu lançava a esmo. Depois vim a saber que acertei copos em várias pessoas, como a avó da aniversariante e duas crianças pequenas, mas elas provavelmente mereciam.

Assim que Yuri conseguiu se recuperar e reagrupar com Zaidem, Átila e Fábio eu rapidamente me juntei a eles e conseguimos sair pela janela até um quarto isolado do salão, aonde nos sentamos para contar os ferimentos. Lá, subitamente, começaram a aparecer vários dos desertores, contando histórias fascinantes sobre como estavam no salão o tempo todo e nós é que não vimos, ou sobre como saíram para buscar ajuda e demoraram pra voltar, ou mesmo sobre como estavam no banheiro o tempo todo e nem notaram a briga acontecendo. A pior parte é que esse que contou a do banheiro estava falando a verdade mesmo, soubemos depois.

Destruída a festa, com avós feridas, crianças chorando, a debutante em choque, o pai dela revoltado e os primos voltando para suas cavernas no mato, fomos enviados em uma van para nossas casas, com a certeza de um tremendo esporro na segunda-feira. Afinal, aquele era o exército e não fazia sentido sair batendo nas pessoas por aí, a não ser que alguém com uma patente maior mande, ou que elas sejam paraguaias, claro.

Na segunda fomos todos chamados para a sala do capitão, onde ouvimos a versão dos eventos que foi reportada a ele pelos pais da aniversariante. Pra nossa surpresa a versão era até bem favorável a nós, mas ainda assim era uma briga de alunos fardados em um evento social. Nós estávamos evidentemente fodidos num nível tremendo. O capitão parecia querer punir todo mundo, mas resolveu dar uma chance pra que quem tivesse brigado se manifestasse. Yuri resolveu dar uma força e disse que ele tinha brigado, com a ajuda de mais quatro, o resto não tinha feito nada. Zaidem, Fábio e Átila se manifestaram e eu, contendo a vontade de falar “eu sou Spartacus!” me manifestei também. Por alguma razão até hoje inexplicada apenas nós cinco escapamos da punição, o que talvez fosse a forma do capitão de dizer que lealdade é mais importante do que auto-preservação ou apenas significasse que ele tinha confundido as listas de punidos e não-punidos.

Seja como for, Duque de Caxias com certeza teria ficado orgulhoso. Exceto do meu lance com os copos, eu acho.

 

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“Good night and good fight!” – 2/3

Primeiro dia de ensaios da valsa. A debutante totalmente alucinada com o nosso amigo loiro, meus amigos totalmente alucinados com as gurias e a professora de dança totalmente alucinada com a minha falta absoluta de coordenação motora. Fomos divididos em casais usando o tamanho como critério e para minha alegria eu passei a fazer par com uma linda descendente de nipônicos chamada Laura. Ainda que com minha dificuldade para manter o ritmo ou minha facilidade para pisar nos pés das pessoas, nós estávamos nos saindo bem em termos de dança e desconfio que eu até não estava me saindo tão mal em ritmo de aproximação, ainda que todos os caras estivessem tentando me passar a perna e a disputa entre nós lembrasse mais “Death Race 2000” do que uma disputa de cavalheiros. Mas eu ia bem, conversava com ela na volta dos ensaios e imaginei que no tempo que faltava pra festa eu até poderia criar intimidade o bastante pra ter alguma chance.

Até que no terceiro ensaio, assim que os pares se formam, um dos caras vai até a professora e começa a conversar. E conversam, e conversam e conversam. O resultado dessa conversa, pro meu choque, foi fazer a mulher concluir que todo mundo tinha mudado de tamanho na noite anterior e os pares teriam que ser redivididos. Com isso Laura foi colocada seis casais pra frente e eu passei a dançar com uma garota gordinha que media 1,44 e por isso nunca poderia tirar carteira de motorista, ainda que fosse poder entrar na piscina de bolinhas do Macdonalds até o final da vida. Esbocei uma reclamação, mas como todo mundo queria se livrar da menina gordinha, todos foram contra mim, exceto, cabe ressaltar, o Yuri, que tinha faltado nesse dia.

E continuamos com mais alguns ensaios, que me fizeram aprender tudo de dança que sei até hoje (valsa é valsa, forró é valsa acelerada, música lenta é valsa em slow e lambada é sexo. Não tem nada a ver com valsa), até chegar no dia da festa, que era antecedida por uma missa. Chegando na missa a mãe da garota disse que cada um de nós teria que acender uma vela com um isqueiro e entrar na igreja. Problema: eu não sabia acender um isqueiro. Sério, não riam, eu apenas não sabia. Yuri me deu um isqueiro e tentou, em cinco minutos, me ensinar uma coisa que eu tentava aprender desde os 12, para desespero da mãe da menina. E lá fui eu. 6 dedos queimados e um litro de fluido de isqueiro depois, eu tinha aprendido. E tinha ficado viciado em acender isqueiros, hábito que sempre emputece meus amigos fumantes.

Livres da missa, que era a parte da chata da noite, já que lá só quem bebe é o padre, fomos para o salão de festas. Entramos, dançamos com as gurias, rimos da cara do nosso colega que era príncipe e fomos curtir a festa. Eu e mais um amigo fomos rapidamente arrastados por duas garotas pra parte de fora do clube onde era a festa. Meu amigo por uma das garotas interessantes do local e eu pela minha parceira mirim de dança. Ele pra ficar com ela e eu pra responder pra garota se ela tinha chance com um outro amigo meu, ao que eu respondi que possivelmente não, já que ele tinha namorada, mas ela sempre poderia tentar. Ela então perguntou se eu estava “disponível”. Me sentindo feliz por ser a última opção da garota que era a última opção de todo mundo eu decidi me jogar no lago, mas por estar com a farda de gala, que é difícil de lavar, tive pena da minha mãe que lavaria aquilo e decidi apenas voltar pro salão e beber.

No próximo capítulo: copos voadores, voadoras em avós e mucha lucha!

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